A negação na meditação

Trecho do capítulo 5 (Dois modos de escapar) do livro "O poder de uma pergunta aberta".

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Pensamentos surgem junto com energia, sensação e emoção, e não há problema nisso. Mas o que fazemos quando energia, sensações, pensamentos e emoções se tornam desconfortáveis? O que fazemos com todas as experiências indesejáveis que temos durante a meditação? A tensão em nosso pescoço: o que fazemos com ela? O que fazemos com todos aqueles pensamentos incontroláveis? O que fazemos com o embotamento, as emoções negativas, a fadiga, a excitação, a loucura, o tédio? Em suma, o que fazemos com as experiências desagradáveis?

“Indesejáveis” refere-se às frustrações que experienciamos quando nossas esperanças e expectativas sobre como queremos que as coisas sejam não são atendidas. Temos preferências em relação a como gostaríamos que nossa experiência fosse: um descanso da vida comum; algum tempo livre para ser “espiritual”; um estado de mente prazeroso. Mas, quando sentamos para meditar, parece que estamos apanhando da nossa mente. Não sabemos como nos relacionar com a energia dinâmica da mente, porque ela parece vir em nossa direção como um inimigo. Mas o fato de rejeitarmos grande parte da nossa experiência deveria nos servir de indicação de que estamos no caminho errado.

A negação retira a consciência do nosso desconforto, buscando a liberação sem levar em conta nossa experiência. Isso soa familiar? O Buda abandonou seu retiro na floresta por ter compreendido que o desenvolvimento espiritual não seria possível por meio da negação do mundo físico, dos pensamentos, das emoções e percepções. Em outras palavras, ele entendeu que atingir a iluminação não será possível se rejeitarmos e negarmos os acontecimentos que são a nossa vida em si.

A beleza e a bondade únicas da abordagem do Buda é que ele nunca sugere que precisamos experienciar nada além do que já experienciamos. O Buda nunca disse que alguns pensamentos são maus e errados e que deveríamos rejeitá-los. Pensamentos e emoções – todos os tipos de eventos – surgem em nossas vidas e nós não podemos controlá-los. O primeiro ensinamento do Buda começa com profunda investigação do sofrimento e suas causas. A contemplação budista oferece-nos a oportunidade de desenvolver uma nova relação com o sofrimento que é o oposto da nossa postura usual de negação das experiências indesejáveis. A partir dessa visão, circunstâncias desafiadoras tornam-se portões de entrada para a liberação. Seguindo esse espírito, os ensinamentos budistas enfatizam a prática de incluir e penetrar profundamente na natureza de todas as coisas, em vez de rejeitar as experiências.

Uma vez, durante um retiro difícil no qual muitos pensamentos e emoções turbulentas seguiam surgindo em minha prática, meu professor, Dzigar Kongtrül Rinpoche, me explicou que as perturbações que encontrei vinham de uma resistência sutil que eu tinha em relação à minha experiência. Rinpoche me fez recordar que a atitude a ser adotada na prática é a de oferecer respeito e gratidão à mente e à experiência. Quando respondemos a qualquer coisa que surge com julgamento ou agressão, experimentamos a dor disso. Na vez seguinte em que eu sentei para praticar, parei de rejeitar minha experiência, de evitá-la. Surpreendi-me ao ver quanta diferença fazia. Era apenas um pequeno ajuste, mas ainda assim senti como se uma carga enorme houvesse sido liberada. E, mais importante, essas instruções me ensinaram a apreciar minha mente durante a prática.

 

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