Gangorra, altos e baixos, primeira nobre verdade

No livro Meditação em ação para crianças, Susan Kaiser Greenland apresenta diversos métodos e práticas para introduzir o mundo interno, a serenidade e a compreensão do nosso mundo para as crianças.

Um dos conteúdos que me chamou a atenção aparece logo no primeiro capítulo, quando a autora apresenta as 4 Nobres Verdades do Buda de um modo bem acessível, sobretudo porque o livro não é propriamente budista.

Não conseguirei colar todo o conteúdo aqui, mas reproduzo alguns trechos:

Quatro descobertas da atenção plena

A atenção plena foi desenvolvida há mais de 2.500 anos como resultado de uma descoberta sobre a natureza da experiência cotidiana baseada no senso comum: a de que cada aspecto da vida se encaixa de alguma forma no âmbito de quatro verdades básicas. No livro Breath by breath, o professor de meditação Larry Rosenberg descreve as quatro verdades como: o sofrimento existe; há uma causa para o sofrimento; há um fim para ele; há uma maneira de chegar a esse fim. Essas quatro descobertas fornecem um roteiro para o ensino da atenção plena para crianças e suas famílias.

A primeira descoberta: a vida tem seus altos e baixos

É fácil subestimar o quanto a infância moderna pode ser estressante. Muitas crianças precisam descobrir por elas mesmas as regras para serem aceitas dentro de suas turmas. Isso não é fácil, já que o preço do fracasso pode ser alto: ostracismo, bullying, falta de amigos. 

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A maioria dos problemas se enquadra na categoria geral estresse, que engloba desde situações de risco de morte até pressões e preocupações crônicas persistentes.

A segunda descoberta: a delusão faz a vida mais difícil do que ela precisaria ser

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Conheci pessoas que falam sobre a prática da atenção plena como se ela fosse uma poção mágica que propiciará a seus filhos acesso a todos os tipos de ganhos materiais: ascensão social, realização acadêmica, riqueza e até mesmo fama. Quero deixar claro que a atenção plena não é mágica. No entanto, há algo mágico em uma criança que vê pela primeira vez o que está acontecendo dentro, para e em torno de si mesma de forma clara, sem uma carga emocional. E isso é verdadeiro mesmo quando o que ela vê é desagradável.

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Enxergar nitidamente pode ser o maior presente que a atenção plena tem a oferecer. Há muitos fatos acontecendo o tempo inteiro – a atenção plena ajuda a colocar as experiências em seu devido lugar e ajuda a medir a resposta, para que esta se dê na proporção correta. [...] Enxergar visivelmente o que está havendo dentro, para e em torno de você, exatamente como é, sem preconceitos ou reatividade, é um processo que leva a um estado mental pacífico, uma das experiências mais extraordinárias da prática da atenção plena. Ajudar crianças irritadas a encontrar um estado mental pacífico é algo com que realmente me importo e um dos objetivos do treinamento da consciência plena.

A terceira descoberta: a felicidade está ao nosso alcance

Que o sofrimento existe e termina são fatos óbvios, mas a ideia de que podemos escolher ser felizes em meio ao sofrimento é bem menos evidente. Possivelmente, a parte mais dolorosa de educar é ver seu filho ser machucado de forma totalmente injusta e não poder fazer nada a respeito. [...] Às vezes, uma mudança de perspectiva é suficiente para aliviar um sofrimento. Já houve momentos em sua vida que pareceram ridículos a ponto de você começar a rir? Naquele momento, seu sofrimento cessou. Nada mudou no mundo exterior, mas com uma mudança de perspectiva você pôde rir sobre o que aconteceu e experimentar um oásis de felicidade, mesmo que apenas por um momento.

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É uma verdade básica e profunda que o sofrimento pode ser causado pela maneira como nós vemos uma situação e agravado pelo modo como reagimos a ela. A terceira descoberta da atenção plena nos diz que a felicidade está ao nosso alcance, por vezes através de algo como uma simples mudança de perspectiva. A quarta descoberta nos mostra como fazer essa mudança.

A quarta descoberta: a chave para a felicidade

Quando algo prazeroso acontece, nossa tendência é querer mais. Rapidamente, começamos a concentrar nossa energia em repetir o episódio (desejo). Quando algo ruim ocorre, ficamos propensos a fazer tudo que está ao nosso alcance para escapar (aversão) e podemos perder aspectos de uma experiência que, ainda que negativa, poderia nos trazer lições de vida úteis. Também tendemos a ignorar experiências sobre as quais somos neutros (indiferença) e nos preocupamos com outras questões. Desejo, aversão e indiferença são reações automáticas e comuns à experiência da vida, mas podem nos causar problemas quando não os reconhecemos.

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Com alguma perspectiva, podemos ver melhor o cenário geral e responder de forma hábil, gentil e compassiva. Essa perspectiva lúcida é o alicerce para uma vida mais consciente. Há um jeito de viver a vida que minimiza a frustração, o descontentamento e, especificamente, reconhece:

  • que crescimento pessoal é tanto uma meta quanto um processo que evolui ao longo do tempo e com a prática;
  • a importância da motivação e do esforço;
  • a natureza mutável de todas as coisas;
  • que tudo o que dizemos e fazemos tem consequências;
  • que estamos conectados a outras pessoas e ao meio ambiente de tantas maneiras diferentes, que possivelmente não sabemos ou imaginamos.

A quarta descoberta nos mostra como viver dessa forma. Viver conscientemente é um processo, não uma característica fixa ou traço de personalidade. Nenhum de nós é perfeito, mas, se conectarmos esse processo ao nosso coração, poderemos levar vidas mais equilibradas.

Um dos grandes privilégios de trabalhar com a edição de livros como os que a Lúcida Letra publica é entrar em contato com os inúmeros modos como diferentes mestres, professores e especialistas encontram para apresentar ensinamentos milenares.

Me sinto muito inspirado por isso e espero que este post tenha sido igualmente inspirador pra você. :-)

Caso queira saber mais, o livro Meditação em ação para crianças está à venda em nosso site, já na segunda tiragem.