Prefácio de Thupten Jinpa para o livro "A lógica da fé"

Prefácio de Thupten Jinpa para o livro "A lógica da fé"

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Prefácio

por Thupten Jinpa

Estou encantado com o convite de oferecer um prefácio ao deliciosamente envolvente livro de Elizabeth Mattis Namgyel, A lógica da fé: uma abordagem budista para encontrar certeza além de crença e dúvida. Apesar de sua linguagem aparentemente simples, o livro aborda algumas das mais desafiadoras questões da espiritualidade – a natureza da fé, sua relação com a racionalidade humana e o papel de ambas em abrir os portões do despertar, além de levantar a pergunta fundamental sobre a relação entre nossa percepção e a realidade. Por tomar de maneira muito séria o papel da investigação crítica, ou meditação analítica, como parte do caminho, eu vejo este livro como um corretivo importante e oportuno para a crescente tendência dentro dos escritos contemporâneos sobre budismo, muitos dos quais têm se inclinado a ignorar a postura mais proativa daquilo que a tradição budista chama de “aspecto de sabedoria” do caminho.

Um tema central neste livro é a noção de originação dependente, ou surgimento dependente, que a autora corretamente apresenta como sendo um dos mais importantes insights do budismo. Os primeiros budistas compreenderam esse princípio em termos de “mera condicionalidade”, oferecendo um caminho para entendermos tanto a nossa própria existência como a do mundo, não como algo predestinado, mas simplesmente por meio da união de causas e condições. Quando as profundas implicações do princípio do surgimento dependente passaram a ser exploradas de modo mais profundo, foi reconhecido que ele revelava nada menos do que a verdadeira natureza de todas as coisas. De fato, em uma escritura do Cânone páli, nós lemos a seguinte afirmação atribuída ao Buda:

Aquele que vê o surgimento dependente vê Dhamma; aquele que vê Dhamma vê o surgimento dependente.

Não é de se admirar que, no Tratado sobre o Caminho do Meio, o pensador budista Nagarjuna – grande influenciador do século II – tenha escolhido o ensinamento do surgimento dependente como o argumento para prestar homenagem ao Buda. Seguindo seus passos, o mestre tibetano Tsongkhapa também escreveu um tributo ao Buda por seus ensinamentos sobre o surgimento dependente.

O que então é este princípio do surgimento dependente? Por que tanto alarde? – alguém pode perguntar. O termo sânscrito traduzido como “surgimento dependente” é pratityasamutpada, que literalmente significa “surgimento por meio de dependência e de modo relacionado”. A ideia aqui é que, quando as coisas surgem em dependência de outros fatores, elas o fazem não de forma isolada, mas dentro de uma rede de complexidade profundamente interconectada. O Buda ilustra essa dependência com a imagem de dois feixes de bambus encostados um no outro, de modo que, quando um é derrubado, o outro também cairá instantaneamente. Assim, a descrição de nossa autora do surgimento dependente por meio da ideia de que as coisas se apoiam é certeira. Pensadores budistas penam bastante ao tentar explicar que os dois termos – dependente e surgimento – não devem ser entendidos como tendo uma relação sequencial, como na frase: “Eu lavei meu rosto e tomei café da manhã”. As coisas não entram primeiro em relação dependente umas com as outras para depois surgir ou vir a ser. Ao contrário, dependência e surgimento deveriam ser entendidos como sendo simultâneos, como na frase: “Eu vou voando”, em que os dois verbos não se referem a dois atos sequenciais separados.

Essa noção de dependência, que está no coração da visão budista do surgimento dependente, pode ser entendida em diferentes níveis. Em um nível básico, existe a dependência causal, na qual nada surge sem depender de suas causas e condições. Este significado em um nível básico é capturado na conhecida afirmação do Buda:

Quando isto existe, aquilo existe; pelo surgimento disto, aquilo surge.

Este é também o significado do celebrado verso, conhecido como o coração do surgimento dependente:

Todas as coisas surgem de suas causas e o Tatágata ensinou o que estas causas são; do mesmo modo aquilo que coloca um fim nestas causas – também isto foi ensinamento pelo grande monge.

Há, no entanto, mais um nível de significado para a noção de dependência, na qual a dependência permeia a totalidade de todas as coisas – não apenas sua origem, mas sua própria identidade. A ideia aqui é a seguinte: mesmo o aparentemente simples conceito de “fogo”, por exemplo, pressupõe um pano de fundo completo, formado por experiência, convenções, linguagem, uso e construção conceitual, que incluem nossas suposições sobre sua relação com o combustível, a função de queimar e assim por diante. Vendo deste modo, causa e efeito são mutuamente dependentes, com um definindo ou se apoiando no outro. Neste sentido, o surgimento dependente se torna um princípio bem mais radical. Ele estabelece que todo e qualquer conceito que nós temos é completamente contingente, e a noção de uma entidade independente, com identidade própria e limites definidos, é simplesmente insustentável. Todas as coisas estão apoiadas em alguma outra coisa, de tal modo que falar de coisas e eventos como se eles possuíssem algum tipo de autonomia necessariamente implica uma falsificação e uma aproximação grosseira.

Assim, para alguém como Nagarjuna, surgimento dependente é tanto a razão quanto a conclusão da investigação crítica sobre a natureza da realidade. Coisas e eventos são desprovidos de existência intrínseca porque eles surgem de forma dependente. Ao mesmo tempo, coisas e eventos são surgimentos dependentes; pois existência e identidade independentes são completamente insustentáveis. De fato, Nagarjuna sugere uma equação entre vacuidade e surgimento dependente, e estabelece que isto é na realidade o verdadeiro Caminho do Meio (Tratado sobre o Caminho do Meio, 24:18). Essa estrofe é talvez a inspiração por trás do conhecido ditado Zen, no qual primeiro se vê a montanha como montanha e a água como água; depois se vê a montanha como não montanha e a água como não água; e, finalmente, se vê a montanha como ainda montanha e a água como ainda água. O objetivo não é que, como resultado do insight, não se veja nada; ainda se vê a montanha como montanha e a água como água, mas, desta vez, sem a falsa suposição de que há entidades intrinsecamente reais por trás dos rótulos que usamos para falar sobre elas. Outro modo de dizer isso é que o mesmo mundo é visto agora sem os filtros e os véus que projetamos nele; o mundo é visto como ele é – vibrante, presente e profundamente interconectado.

Nagarjuna e sua tradição nunca entenderam os ensinamentos sobre vacuidade e surgimento dependente como uma simples questão filosófica. Para eles, o insight sobre esta verdade do surgimento dependente constitui o próprio coração do caminho para o verdadeiro despertar. Como Nagarjuna coloca, o propósito da vacuidade é causar a cessação das elaborações conceituais, que se encontram nas raízes do nosso apego e do nosso aprisionamento psicológico a uma noção solidificada da realidade, e na reatividade emocional em nossa relação com o mundo ao nosso redor. E essa desconstrução de nossos hábitos de apego, ancorados em nossa fixação a um eu e um mundo objetificados, requer a séria empreitada do questionamento crítico sobre as próprias raízes de nossos hábitos e seus mecanismos. Só assim aprenderemos a ver e nos relacionar com nós mesmos e com o mundo de uma maneira que esteja mais próxima da caótica verdade da profunda interdependência. O mestre budista do século XVII Chandrakirti, um intérprete de Nagarjuna de grande influência, mostra este ponto como segue:

Os sábios declararam que a cessação da conceitualização / é um fruto da prática da análise. (Entrando no Caminho do Meio, 6:117cd)

A beleza deste livro de Elizabeth Mattis Namgyel está em sua apresentação extremamente criativa desse insight sobre surgimento dependente. Constantemente relacionando esse insight à nossa experiência cotidiana e gentilmente nos guiando por uma série de autoquestionamentos, bem como fazendo uso de visões vindas da ciência contemporânea, da psicologia e da literatura, a autora traz essa descoberta fundamental do Buda à vida para o leitor e leitora contemporâneos. Com tal abordagem, há uma possibilidade real de que, como expresso pela autora, a lógica da vacuidade – o desvelar das complexas camadas de relações dependentes entranhadas na realidade – não mais permanecerá confinada ao domínio exclusivo da erudição acadêmica. A realidade do próprio indivíduo torna-se o campo do questionamento, e a verdade revelada por meio de tal questionamento reflete nada além do que a complexa teia de interrelacionamentos que é a própria existência do indivíduo. Se experienciado desta forma, o insight sobre o surgimento dependente pode oferecer a qualquer um, seja budista ou não, uma perspectiva verdadeiramente liberadora. Nossas dicotomias habituais e rígidas sobre nós e outros, interno e externo, sujeito e objeto, e assim por diante, naturalmente se dissolvem, e começamos a ver e a viver nossa vida em sintonia com o modo como as coisas realmente são. Portanto, como um entusiasta do ensinamento do Buda sobre surgimento dependente e como alguém que aspira incorporar essa verdade ao cotidiano da vida, é uma alegria genuína introduzir para o leitor contemporâneo este belo livro, que ajuda a chamar atenção para a verdade do surgimento dependente de um modo tão vigoroso e fresco.

Thupten Jinpa
Principal tradutor de S.S. o Dalai Lama e autor de Um coração sem medo 

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