Pesar e arrependimento (trecho de "O mundo poderia ser diferente")

Pesar e arrependimento

Pesar e arrependimento são elementos-chave na prática de conduta ética. Bodisatvas sabem que eles cometeram e irão cometer erros. Ao trilhar o caminho da perfeição, eles sabem que há uma longa jornada pela frente. O principal é entender o caminho e ser honesto sobre o que de fato estão fazendo em qualquer estágio da jornada.

Então, quando vemos nossos erros, não os justificamos ou negamos. Sentimos pesar e remorso. Cultivamos esses sentimentos. Queremos nos sentir terríveis quando machucamos alguém. Sentir-se terrível faz bem, porque é bom sentir-se mal quando causamos mal. Seria pior machucar alguém e seguir com a vida, como se não importasse. Pesar e remorso me mantêm honesto e me levam ao arrependimento, que inclui um pedido de desculpas, consertar as coisas se eu puder e me comprometer a não fazer o mesmo de novo.

Provavelmente, em algumas situações, iremos passar por esse processo repetidamente, porque iremos cometer o mesmo erro diversas vezes, mesmo que não o queiramos. Desde que estejamos dispostos a sentir pesar e arrependimento, sabemos que está tudo bem. A prática segue em frente como é, e estamos comprometidos a continuar na direção certa. Nada ajuda mais do que os erros. Apesar de trabalharmos duro para não os cometer e apesar de sofrermos muito quando os fazemos! Bodisatvas não estão tentando evitar o sofrimento (vamos ouvir muito sobre isso no próximo capítulo). Eles sabem que sofrimento e dificuldades aprofundam o coração e fortalecem a compaixão. Nesse sentido, sentir-se péssimo é bom para os bodisatvas.

Mas há uma grande diferença entre o pesar por ter cometido uma ação danosa e chegar à conclusão de que somos pessoas inerentemente más, condenadas a fazer coisas ruins. É uma perspectiva budista profundamente arraigada de que não existe uma pessoa fixa, muito menos uma pessoa inerentemente má ou inadequada. Existe somente o que acontece, surgimento e cessação de momento a momento de acordo com as condições. Há tendências, hábito, há responsabilidade pela ação. Mas nada disso é motivo para nos sentirmos culpados por sermos quem somos, como se uma semente substancial de mal ou inadequação estivesse alojada dentro de nós. Se nos sentimos assim em relação a nós mesmos, sabemos que é apenas um sentimento – pessoal, psicológico e surgindo de um hábito cultural. É verdadeiro somente nesse sentido, não é baseado em nenhum fato evidente por si só. Quando cometemos um erro e nos deixamos levar por profunda autodepreciação, lembramos o que é verdadeiro: fizemos algo que machucou alguém. Nos arrependemos. Assumimos a responsabilidade porque é bom para nós e para os outros. Mas não há culpa. E o senso de vergonha e autodesprezo é um excesso. Não há razão real para eles, e não ajuda em nada. Provavelmente, se temos um condicionamento como esse, teremos de repetir essa ação muitas vezes antes de terminarmos com ela.

 

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