Presos no mundo conceitual (trecho do livro "Buda rebelde")

Presos no mundo conceitual

Se nos distraímos, o mundo conceitual nos toma por inteiro. É uma situação bem triste. Não podemos nem mesmo curtir um dia ensolarado, com as folhas sacudindo ao vento. Temos que rotular e, assim, passamos a viver com conceitos de sol, de vento, de folhas que se movem. Se apenas conseguíssemos deixá-los onde estão, não seria tão ruim, mas isso nunca acontece. A partir deles começa: “Ah, que legal, é tão bom estar aqui. É tão bonito, mas seria ainda melhor se o Sol estivesse brilhando daquele ângulo.” Quando caminhamos assim, não somos nós caminhando; é um conceito caminhando. Quando estamos comendo, não estamos realmente comendo — é um conceito que come. Quando estamos bebendo, não estamos realmente bebendo — é um conceito que bebe. Em um determinado momento, o todo se dissolve em conceitos.

Quando o mundo externo se reduz a um mundo conceitual, não somente perdemos uma parte importante de nós mesmos, perdemos também todas as coisas belas do mundo natural: as florestas, as flores, os pássaros e as lagoas. Nada leva a nenhuma experiência genuína. Então, nossas emoções entram em jogo, sobrecarregando os nossos pensamentos com a sua energia. Descobrimos que há coisas “boas”, que trazem “boas” emoções, e que há coisas “ruins”, que trazem emoções “ruins”. Quando vivemos assim todos os dias, tudo se torna muito cansativo, começamos a nos sentir exaustos e tudo fica pesado. Podemos pensar que o nosso cansaço vem do trabalho ou da família, mas, em muitos casos, não é nem um nem outro — é só a nossa mente. O que está nos deixando exaustos é a forma como nos relacionamos emocionalmente e conceitualmente com a vida. Corremos o risco de ficar tão presos ao reino dos conceitos que nada será inspirador, leve ou natural.

Essas três mentes — a perceptual, a conceitual e a emocional — são aspectos da mente relativa, nossa consciência mundana, que geralmente vivenciamos como um fluxo contínuo. Mas, na verdade, as percepções, pensamentos e emoções duram apenas instantes. São coisas impermanentes. Elas vêm e vão tão rapidamente que nem chegamos a ficar cientes da descontinuidade desse fluxo, do espaço que há entre cada evento mental. É como assistir a um filme de 35 mm. Sabemos que é composto por muitos quadros individuais, mas devido à velocidade com que se move, nunca percebemos quando um quadro termina e outro começa. Nunca vemos o espaço entre os quadros, da mesma forma que nunca vemos o espaço de consciência entre um pensamento e outro.

Acabamos vivendo em um mundo fabricado por esses três aspectos da mente relativa. Camada após camada, construímos uma realidade sólida, que acabou se tornando um fardo, confinando-nos a um espaço diminuto, a um cantinho de nosso ser, e deixando de fora muito do que realmente somos. Geralmente, pensamos em uma prisão como algo constituído por paredes e nos prisioneiros como as pessoas que estão ali dentro, retirados do mundo por causa de seus crimes. Os prisioneiros têm rotinas básicas que os acompanham ao longo do dia, mas as possibilidades de uma experiência plena e de um completo usufruto da vida estão bastante limitadas.

Estamos presos de forma semelhante, dentro dos muros do nosso mundo conceitual. O Buda ensinou que na base de tudo isso está a ignorância, o estado de não saber quem realmente somos, de não reconhecermos nosso estado natural de liberdade e, por isso, não realizarmos o nosso potencial para a felicidade, o contentamento e a fruição de nossa vida.

NOSSO ESTADO NATURAL DE LIBERDADE

Essa ignorância é um tipo de cegueira que nos leva a acreditar que o filme a que estamos assistindo é real. Como mencionei anteriormente, quando acreditamos que essa mente ocupada — esse fluxo de emoções e conceitos — é quem realmente somos, é como se estivéssemos dormindo e sonhando sem saber que estamos dormindo. Quando não sabemos que estamos dormindo em meio ao estado de sonho, não temos controle sobre nossa vida de sonho. O Buda ensinou que a chave para despertar e destravar a porta de nossa prisão é o autoconhecimento, que extingue a ignorância, como se alguém tivesse acendido uma luz em uma sala que esteve escura por um longo tempo. A luz imediatamente ilumina a sala toda, não importa quanto tempo tenha estado escurecida, e assim podemos ver o que não víamos antes — nossa verdadeira natureza, nosso estado natural de liberdade.

 

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